PRIMEIRO LUGAR NO IDEB EM CAMPO GRANDE (MS)
Pedro Demo (2008)
Entre os municípios das capitais, Campo Grande (Mato Grosso do Sul) obteve, em 2008, o primeiro lugar em dois segmentos (início e fim das séries do ensino fundamental). O Ideb é uma medida de desempenho escolar com base na Prova Brasil, instituída em abril de 2007, com o objetivo de monitorar todas as escolas públicas. A média alcançada foi de 5,1 no primeiro segmento e de 4,5 no último segmento, cifras ainda baixas tomadas em si, mas que representam as melhores do país. Descrevo aqui brevemente os procedimentos e fundamentos utilizados para produzir este êxito, sob minha orientação como Consultor da Secretaria.
Desde o início da atual gestão (que se encerra no fim deste ano) do Prefeito Nelson Trad Filho e da Secretária Cecília A. da Motta, fez-se a opção por investir maciçamente no professor como estratégia crucial para melhorar a qualidade do desempenho escolar. A primeira medida foi instaurar um Grupo-Base, composto de 20 professores da rede, que permaneceram estudando comigo por volta de um ano, dentro da metodologia de aprendizagem fundada em pesquisa e elaboração própria. A idéia era formar professores autores, capazes de formular textos próprios, tendo em vista promover tais habilidades nos alunos. Este grupo produzia, em média, um texto por mês, dos quais resultaram dois livros publicados na Editora da Universidade Federal. Durante este tempo foi desenvolvido um curso intensivo de seis dias, a ser ministrado por esse Grupo, com o propósito de atingir a todos os professores semestralmente, realizando o que se chamou “direito de estudar”. A par disso, visava-se construir autonomia local, à medida que este Grupo assumisse a formação permanente dos docentes. Esta idéia, no entanto, evoluiu logo para uma “especialização” (pós-graduação lato sensu): três cursos de seis dias (ministrados pelo Grupo), mais um percurso universitário e monografia (em convênio com entidade universitária). Foram capacitados mais de 1.200 docentes, tendo como resultado maior a conquista da confiança dos professores da rede que passaram a ver nos cursos uma proposta séria, bem montada e efetiva, ainda que exigente.
Em termos de política educacional, a idéia chave foi alfabetizar as crianças já na 1ª série, contrariando aí a política oficial (que supõe alfabetizar em até três anos), tendo em vista ser isto objetivo facilmente realizável, desde que exista o devido cuidado na escola. Este cuidado foi reforçado por parte do Grupo que acompanhou os 1º e 2º anos, aluno por aluno, através de procedimentos avaliativos meticulosos, sempre em colaboração com os respectivos professores. O Prefeito concedeu um aumento de 10% na remuneração docente do 1º ano (vinculado ao exercício efetivo da docência), procurando-se assim atrair os melhores profissionais. Tínhamos em mente cuidar sistematicamente de cada aluno, evitando-se a reprovação, a progressão automática e distorção idade/série. Diga-se ainda que a Secretaria já detinha ampla experiência em avaliação, plantada em gestões anteriores, e que foi bem aproveitada. A diferença agora era que, sabendo com detalhe o que estava ocorrendo em sala de aula, tirávamos as devidas conseqüências. Para a Secretária, o compromisso com a aprendizagem qualitativa de cada criança é a razão de ser da Secretaria.
O resultado veio antes do que esperávamos, já que, em educação, melhorias costumam ser lentas. Mostrou-se claramente que a aprendizagem dos alunos depende muito (não exclusivamente) da qualidade docente, em especial de professores autores, autônomos, que sabem pensar e intervir. Toda criança alfabetiza-se bem no 1º ano, desde que encontre uma escola adequada. Alfabetizar significa aí não apenas decodificar letras e números, mas avançar para a construção de textos com autoria reconhecida. Nesta rota, a Secretaria está implantando agora duas Escolas de Tempo Integral (ETI), nas quais os alunos no 1º ano terão computador um-a-um (progredindo-se para todos os anos sucessivamente). Os prédios já foram inaugurados, mas funcionam no segundo semestre de 2008 apenas com a presença dos professores (selecionados para tanto), com o objetivo de cuidar de sua qualidade e de combinar de maneira sábia aprendizagem inequívoca com fluência tecnológica, no aluno e no professor. Tendo aprendido de experiência anterior com as ETIs de Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro), percebi que a chave está na qualidade dos docentes (o “mesmo” professor tende a fazer a “mesma” escola), razão pela qual se exigiu professor de tempo integral (oito horas de permanência contínua), detendo formação específica e continuada, mantendo produção constante em plataformas eletrônicas (blogs e wikis) e sempre avaliado em suas funções. O aluno será monitorado um-a-um, por via eletrônica, para garantir seu direito inalienável de aprender bem, e permitindo que todos os interessados possam acompanhar o processo. Além de aprender bem, esta aprendizagem será conduzida em plataformas virtuais que facultem “novas alfabetizações” e acesso às habilidades do século XXI. A proposta é radicalmente inovadora: gira em torno de “tempo de estudo”, não de aula, durante o dia inteiro, com o intuito de fazer de cada aluno um autor, orientado e avaliado por docentes autores.
Retiro dessa experiência a seguinte lição:
a) é bem possível melhorar o desempenho escolar; nossa miséria educacional pode ser profundamente alterada e com relativa rapidez;
b) a qualidade docente é a chave deste sucesso, porque nada frutifica na escola sem a mediação docente; em especial, toda mudança precisa provir dele, também para que provenha de dentro para fora;
c) gestão adequada da Secretaria é essencial, em particular para encaixar a idéia do compromisso com a aprendizagem das crianças: se estas não aprendem, nada valeu a pena;
d) o aluno aprende bem se o professor aprende bem; cuidar do professor é estratégia essencial; tem direito de estudar como parte de seu trabalho na escola.