JUAN CASASSUS para Educador!
23/04/2009

Entrevista com Juan Casassus

16/04/2009

Até que ponto o fator emocional influencia nos resultados do ensino-aprendizagem é um dos objetos de estudo do pesquisador chileno Juan Casassus. Em entrevista à equipe do Educador, o ex-consultor da Unesco elenca tópicos para se atingir um nível de qualidade de ensino na América Latina.

Educador: Gostaria de saber mais sobre sua atuação hoje. Quais são atualmente as suas áreas de investigação? O senhor ainda desenvolve algum trabalho junto a Unesco?

Juan Casassus: Minha investigação, hoje, trata dos efeitos da mudança da lógica na Educação. Desde o início dos anos 80, mudou-se a maneira de pensar a Educação, desde as disciplinas humanas até as exatas. Isso trouxe grandes mudanças na Educação. Algumas positivas (mais pressupostos, mais construção, mais livros, mais meios tecnológicos, redução de gastos), mas também outras negativas (retrocessos na Educação, mal-estar e desinteresse dos professores, desvalorização da carreira docente, instrumentalização, segregação, perda dos valores humanistas, perda da qualidade da Educação). Enfim, é um tema complexo, que deve ser analisado, pois as consequências são, em sua maioria, muito negativas.

Minha outra área de investigação é o estudo do mundo emocional na Educação, e o desenvolvimento de marcos teóricos para compreender essa dimensão. Meu entusiasmo é que creio que, por esse caminho, podemos ver algumas saídas para a crise atual da Educação.

Quanto a Unesco, atualmente não estou formalmente vinculado à organização, mas sempre estou em contato e em certas ocasiões me honram publicando alguns de meus trabalhos, como o que foi lançado recentemente, Fundamentos para uma Educação Emocional.

Educador: De que forma o clima emocional pode contribuir para uma aprendizagem mais eficaz?

JC: As ciências neurológicas e também as ciências cognitivas, bem como as sociais, mostram que a aprendizagem depende das emoções. Há emoções que a favorecem e outras que são neutras, e outras que as obstruem. Por isso, é preciso conhecer o mundo emocional para desenvolver competências para favorecer a manifestação das emoções favoráveis à aprendizagem e transformar aquelas que as obstruem. Isso não é algo fácil e necessita coragem, porém pode-se aprender.

Para colocar em termos simples, quando alguém está interessado em algo, mantém-se atento, quando não está interessado, distrai-se (80% do tempo os alunos estão distraídos). Quando o currículo é obsoleto, é um currículo que não interessa. Os alunos não estão interessados no currículo. Isso é relatado por todos os educadores. Mas os alunos não aprendem.

Nós definimos clima emocional como o resultado de uma vinculação dupla: o tipo de vínculo entre o professor e o aluno, a relação entre alunos e o clima que emerge deles. O tipo de relação afetiva facilita a aprendizagem. Se um aluno admira ou está encantado por sua professora, esse aluno aprende tudo.

Mas esse tipo de relação também pode o impedir. Se um aluno detesta sua professora, e ela está com implicância, o aluno tira notas baixas e não aprende. Às vezes, ocorre que um aluno requer que se aplique um regime autoritário e de conduta restritiva, ao mesmo tempo, outro aluno necessita demais de autonomia. Um bom clima emocional leva em conta que um aluno necessita um tipo de relação e outro precisa de outro tipo de relação. Por isso decidimos que não existe uma relação de vínculo que seja normativa, padronizada e excelente para todos. Decidimos que deve ser adequada. Um bom clima emocional em aula é a variável que mais explica a variação dos rendimentos acadêmicos.

Educador: Na sua opinião, as técnicas estão sobrepondo-se às emoções em sala de aula atualmente? Qual é o limite entre uma e outra? Ou elas se complementam?

JC: Não estou certo da resposta. Requer-se um pouco mais de investigação para saber o que está acontecendo a partir deste ponto de vista. Assim, minha resposta é mais ou menos teórica. A vontade da política educativa é impor muita técnica. É um signo do modernismo, e a partir do ponto de vista teórico, mesmo quando estamos sob sua influência, o modernismo é algo que está no passado.

Como tudo, a inclusão e o desenvolvimento das técnicas têm seu lado positivo: facilita a auto-aprendizagem, dá mais acesso à informação, é mais rápido e outras coisas desse tipo. Mas também tem seu lado negativo. Esse abarca muitos aspectos. Por exemplo, há uma forte tendência em transformar uma profissão que tem sido basicamente uma relação afetiva, uma arte para resolver problemas inéditos, e uma profissão prestigiada, em uma técnica de execução. Isso traz muitos efeitos negativos, entre eles o fato de que os docentes não se reconhecem nesse rol, e perderam sua identidade, o que levou ao mal-estar docente, a depressão, as tensões e o desenvolvimento de sintomas de Burnout, ou seja, a progressiva apatia pelo trabalho.

As tecnologias de gestão (avaliações, padrões, sistemas de informação, incentivos, castigos e ameaças) não vêm favorecendo a responsabilidade tradicional dos docentes, diminuem a diversidade (a favor da homogeneidade), superficializam as aprendizagens e reduzem a Educação a uma prática de responder coisas que estão nos exames de avaliação. Quer dizer, levam a Educação para um lado diferente da finalidade estabelecida para cada país.

Há um problema sério nisso, pois as demandas sociais estão modificando a Educação: busca-se mais o desenvolvimento equilibrado, mais formação humana, menos violência. Acredito que nesses momentos é preciso uma nova leitura do rol da Educação nas sociedades pós-modernas. Dados os problemas que afetam nossa sociedade, fica claro que já não se necessita educar para formar capital.

Educador: O que tem sido feito e ainda precisa ser realizado para que a escola atinja um nível de excelência na América Latina?

JC: Os últimos 30 anos têm trazido uma maior tensão e rigor na formulação de políticas. Foram conseguidos avanços além da base material da aprendizagem. Foram consolidadas as visões construtivistas da aprendizagem, e as novas tecnologias da informação facilitam tais aprendizagens. Todos esses são elementos positivos.

Porém, é necessário produzir ajustes para que a Educação possa mover-se em um sentido mais completo. A título de exemplo, podemos dizer que, primeiramente, deve-se mudar o sujeito ontológico da Educação. Hoje, temos como sujeito o ser racional, e não se tem em conta que, além de racionais, somos seres emocionais.

Segundo, é preciso harmonizar a teoria com a prática. É dizer que a teoria de aprendizagem é construtivista, mas todas as políticas estão desenhadas a partir de uma perspectiva condutivista.  Isso produz um gasto imenso e uma grande contradição.

Terceiro, mudar radicalmente os métodos de ensino/aprendizagem. Quarto, apoiar os educadores em sua formação, no aprimoramento de sua carreira docente, aumentando substancialmente suas remunerações para recuperar o prestígio da carreira e atrair bons alunos que optem pela Educação, ao invés da Engenharia ou Medicina. Quinto, deixar de temer os adolescentes e escutá-los para elaborar o currículo a partir do que é de interesse. Enfim, há muito o que se fazer.

* Juan Casassus é filósofo e sociólogo e atuou como consultor em pesquisas de qualidade de ensino na América latina para a UNESCO.

* Texto original: http://www.educador.com.br/entrevistas/educador-educar-2009/entrevista-com-juan-casassus/