PRAFÁCIO
Doze anos após a edição do livro “La formación de conceptos científicos. Una perspectiva desde la teoria de la actividad”, pela Editora da UFRN, em 1997, tenho a satisfação de voltar a apresentar uma nova versão, bastante ampliada e, ainda mais fundamentada e esclarecedora desse instigante referencial teórico-educativo da escola soviética.
Com a reconfiguração da obra inicial, surge, praticamente, um novo livro, marcado pela atualidade do referencial que integra três grandes teóricos da escola soviética: L.S.Vigotsky, A.N.Leontiev e P.Ya. Galperin. O primeiro (Vigotsky), muito conhecido no Brasil, o segundo começa a ser conhecido (Leontiev), e o terceiro ainda desconhecido (Galperin) no âmbito do pensamento educativo brasileiro, principalmente quando suas idéias são discutidas conjuntamente, de maneira complementar. Guardando a distância com o projeto socialista soviético, o livro revela a necessidade de se avançar para uma escola formadora e plenamente educada para conquistar sua devida responsabilidade na formação integral do estudante.
O autor, de origem cubana, é um grande pedagogo e químico, um verdadeiro professor no sentido pleno da palavra, fortemente especializado nos processos do ensino e da aprendizagem escolar, um didata, uma referência como formador de professores e de pesquisadores notadamente na área do ensino das ciências naturais. Ao adotar, como princípio, elevado nível de exigências a respeito da
postura que deve ter um professor profissional, e, por sua vez, ao fazer exigências ao seu alunado, aí fica demarcado um diferencial na sua postura comprometida e exigente, em sala de aula. Para ele,
dificilmente haverá aprendizagem sem um planejamento teoricamente fundamentado e a execução de um plano de aula como projeto de pesquisa baseado nos objetivos como intencionalidade educativa. Não consegue, jamais, abrir mão da sua arraigada concepção de docente que ensina e educa, que motiva, que estabelece relações entre o conteúdo disciplinar e a aplicabilidade do conhecimento, que exige, portanto, uma ativa e atenta participação dos alunos na sala de aula. Frequentemente ele torna-se referência em cada turma da graduação e da pós-graduação em que atua, pela sua postura que o identifica como docente e pesquisador apaixonado pelo metier, exigente, mas fortemente preocupado com a aprendizagem formativa dos seus alunos.
Um diferencial no perfil do Isauro é, portanto, a grande experiência no campo do ensino, da didática dos conteúdos, da pesquisa e sua extraordinária vocação, engajamento, atitude profissional voltada para fazer com que a educação e a formação dos indivíduos possam promover mudanças qualitativas na vida e no desenvolvimento dos estudantes. Certamente que a influência de sua formação, alicerçada na Revolução Cubana serve de suporte para ele abraçar a causa da educação transformadora, promotora de oportunidades e de uma escola empenhada na construção de um “homem cidadão novo”, plenamente educado.
Conhecendo muito de perto sua trajetória posso melhor revelar, neste prefácio, a atitude do autor ao exercer a docência e, portanto, vivenciar os princípios que tão bem defende e explicita neste livro, apoiado no que ele tem chamado “Teoria da Assimilação por Etapas da Atividade Histórico-Cultural”. É surpreendente a coerência entre o que dá sentido e significado à sua maneira de atuar na sala de aula, ao acionar seu vasto repertório de conhecimentos teórico-profissional a respeito do processo ensino-aprendizagem, e a diversificada forma de programar atividades didáticas e pedagógicas.
Posso afirmar, por conhecimento de causa, que o sentido maior deste livro é o de oportunizar aos professores e aos demais profissionais que atuam na docência o que tão bem ele defende, como princípio: “para exercer sua tarefa de guia e orientador do processo de aprendizagem, o professor deve possuir competência profissional e destacada qualidade humana que lhe permita uma estreita relação amistosa com os alunos, baseada no respeito mútuo, que possibilite a mobilização da personalidade do aluno com o objetivo de formar novas qualidades de sua personalidade” (p.25).
O livro é uma referência de peso para o campo da formação de conceitos e dos princípios didáticos nas perspectivas que discute. Oferece uma orientação clara para se instrumentalizar uma teoria do
ensino e da aprendizagem que possibilita compreender e desenvolver o processo de ensinar e de aprender com sustentabilidade teórica, com elevado potencial crítico e criativo que caracteriza o professor na perspectiva de um profissional. Assim que, a espontaneidade (mas sim a criatividade) não ganhe espaço nesse projeto de ensinar o professor a ensinar e a atuar. Essa situação vem a preencher certa lacuna relativa a referências nas quais se integrem a psicologia e a didática de forma interdisciplinar. A perspectiva vygotskyana é amplamente conhecida na academia e constitui suporte teórico de muitas pesquisas. Mas não se tem avançado, de forma conseqüente, no desenvolvimento de modelos didáticos para a instrumentalização prática dos resultados dessas pesquisas. O presente livro presta uma contribuição nesse sentido, integrando, de forma dialética, as
idéias de Vygotsky às idéias de Leontiev e de Galperin, em algo que poderíamos reconhecer como uma psicodidática.
A nova profissionalização docente apresenta várias referências para que o professor reconheça a sua responsabilidade e o seu papel formador. Esse é o novo professor profissional que defendemos e que tive a satisfação de compartilhar com os amigos Isauro e Clermont Gauthier no livro Formar o Professo Prossionalizar o ensino: perspectivas e desafios (Editora Sulina, 2004). Essa perspectiva está focada no desafio a ser assumido pelo professor profissional, para que o aluno aprenda a ter autonomia e, portanto, aprenda a aprender.
Uma outra contribuição do referencial aqui abordado é a de revelar a coerência entre as categorias da didática: objetivos, conteúdos, ressaltando os indicadores qualitativos da atividade (graus de generalização, graus de consciência, graus de independência, graus de retenção/solidez), que permitem dirigir com bases científicas o processo ensino-aprendizagem e, conseqüentemente, permite uma avaliação qualitativa do saber fundamentado, o que, por sua vez, também permite uma aprendizagem consciente e significativa. Portanto, possibilita que os alunos participem conscientemente dos projetos educativos da escola e da sociedade.
Por fim, chamo a atenção para o fato do referencial do livro estar voltado para uma finalidade educativa explicita, onde a aprendizagem não se limita à questão meramente cognitiva, mas também à formativa, ancorada por um projeto de sociedade. Essa afirmativa me faz destacar o imenso desafio dos educadores do nosso país: prover a sociedade de uma educação escolar que, efetivamente, forme e eduque. Uma educação inclusiva, estrategicamente direcionada, principalmente para os alunos da rede pública de ensino, onde incide a grande massa da sociedade brasileira, reconhecidamente sem acesso a uma escola de qualidade. Recomendo mais que a leitura,
o estudo dessa obra que pode constituir-se como uma referência dentro da diversidade de conhecimentos que sustentam a base de conhecimento do agir do professor profissional, o que implica saber tomar decisões fundamentadas cientificamente no complexo campo da educação escolar.
Betania Leite Ramalho