Vygotsky Leontiev Galperin - Formação de conceitos e princípios didáticos
Autor(es): Isauro Beltrán Núñez   
PREÇO: R$ 30.00

ISBN: 978-85-98843-96-4

PRAFÁCIO

Doze anos após a edição do livro “La formación de conceptos científicos. Una perspectiva desde la teoria de la actividad”, pela Editora da UFRN, em 1997, tenho a satisfação de voltar a apresentar uma nova versão, bastante ampliada e, ainda mais fundamentada e esclarecedora desse instigante referencial teórico-educativo da escola soviética.

Com a reconfiguração da obra inicial, surge, praticamente, um novo livro, marcado pela atualidade do referencial que integra três grandes teóricos da escola soviética: L.S.Vigotsky, A.N.Leontiev e P.Ya. Galperin. O primeiro (Vigotsky), muito conhecido no Brasil, o segundo começa a ser conhecido (Leontiev), e o terceiro ainda desconhecido (Galperin) no âmbito do pensamento educativo brasileiro, principalmente quando suas idéias são discutidas conjuntamente, de maneira complementar. Guardando a distância com o projeto socialista soviético, o livro revela a necessidade de se avançar para uma escola formadora e plenamente educada para conquistar sua devida responsabilidade na formação integral do estudante.

O autor, de origem cubana, é um grande pedagogo e químico, um verdadeiro professor no sentido pleno da palavra, fortemente especializado nos processos do ensino e da aprendizagem escolar, um didata, uma referência como formador de professores e de pesquisadores notadamente na área do ensino das ciências naturais. Ao adotar, como princípio, elevado nível de exigências a respeito da
postura que deve ter um professor profissional, e, por sua vez, ao fazer exigências ao seu alunado, aí fica demarcado um diferencial na sua postura comprometida e exigente, em sala de aula. Para ele,
dificilmente haverá aprendizagem sem um planejamento teoricamente fundamentado e a execução de um plano de aula como projeto de pesquisa baseado nos objetivos como intencionalidade educativa. Não consegue, jamais, abrir mão da sua arraigada concepção de docente que ensina e educa, que motiva, que estabelece relações entre o conteúdo disciplinar e a aplicabilidade do conhecimento, que exige, portanto, uma ativa e atenta participação dos alunos na sala de aula. Frequentemente ele torna-se referência em cada turma da graduação e da pós-graduação em que atua, pela sua postura que o identifica como docente e pesquisador apaixonado pelo metier, exigente, mas fortemente preocupado com a aprendizagem formativa dos seus alunos.

Um diferencial no perfil do Isauro é, portanto, a grande experiência no campo do ensino, da didática dos conteúdos, da pesquisa e sua extraordinária vocação, engajamento, atitude profissional voltada para fazer com que a educação e a formação dos indivíduos possam promover mudanças qualitativas na vida e no desenvolvimento dos estudantes. Certamente que a influência de sua formação, alicerçada na Revolução Cubana serve de suporte para ele abraçar a causa da educação transformadora, promotora de oportunidades e de uma escola empenhada na construção de um “homem cidadão novo”, plenamente educado.

Conhecendo muito de perto sua trajetória posso melhor revelar, neste prefácio, a atitude do autor ao exercer a docência e, portanto, vivenciar os princípios que tão bem defende e explicita neste livro, apoiado no que ele tem chamado “Teoria da Assimilação por Etapas da Atividade Histórico-Cultural”. É surpreendente a coerência entre o que dá sentido e significado à sua maneira de atuar na sala de aula, ao acionar seu vasto repertório de conhecimentos teórico-profissional a respeito do processo ensino-aprendizagem, e a diversificada forma de programar atividades didáticas e pedagógicas.

Posso afirmar, por conhecimento de causa, que o sentido maior deste livro é o de oportunizar aos professores e aos demais profissionais que atuam na docência o que tão bem ele defende, como princípio: “para exercer sua tarefa de guia e orientador do processo de aprendizagem, o professor deve possuir competência profissional e destacada qualidade humana que lhe permita uma estreita relação amistosa com os alunos, baseada no respeito mútuo, que possibilite a mobilização da personalidade do aluno com o objetivo de formar novas qualidades de sua personalidade” (p.25).

O livro é uma referência de peso para o campo da formação de conceitos e dos princípios didáticos nas perspectivas que discute. Oferece uma orientação clara para se instrumentalizar uma teoria do
ensino e da aprendizagem que possibilita compreender e desenvolver o processo de ensinar e de aprender com sustentabilidade teórica, com elevado potencial crítico e criativo que caracteriza o professor na perspectiva de um profissional. Assim que, a espontaneidade (mas sim a criatividade) não ganhe espaço nesse projeto de ensinar o professor a ensinar e a atuar. Essa situação vem a preencher certa lacuna relativa a referências nas quais se integrem a psicologia e a didática de forma interdisciplinar. A perspectiva vygotskyana é amplamente conhecida na academia e constitui suporte teórico de muitas pesquisas. Mas não se tem avançado, de forma conseqüente, no desenvolvimento de modelos didáticos para a instrumentalização prática dos resultados dessas pesquisas. O presente livro presta uma contribuição nesse sentido, integrando, de forma dialética, as
idéias de Vygotsky às idéias de Leontiev e de Galperin, em algo que poderíamos reconhecer como uma psicodidática.

A nova profissionalização docente apresenta várias referências para que o professor reconheça a sua responsabilidade e o seu papel formador. Esse é o novo professor profissional que defendemos e que tive a satisfação de compartilhar com os amigos Isauro e Clermont Gauthier no livro Formar o Professo Prossionalizar o ensino: perspectivas e desafios (Editora Sulina, 2004). Essa perspectiva está focada no desafio a ser assumido pelo professor profissional, para que o aluno aprenda a ter autonomia e, portanto, aprenda a aprender.

Uma outra contribuição do referencial aqui abordado é a de revelar a coerência entre as categorias da didática: objetivos, conteúdos, ressaltando os indicadores qualitativos da atividade (graus de generalização, graus de consciência, graus de independência, graus de retenção/solidez), que permitem dirigir com bases científicas o processo ensino-aprendizagem e, conseqüentemente, permite uma avaliação qualitativa do saber fundamentado, o que, por sua vez, também permite uma aprendizagem consciente e significativa. Portanto, possibilita que os alunos participem conscientemente dos projetos educativos da escola e da sociedade.

Por fim, chamo a atenção para o fato do referencial do livro estar voltado para uma finalidade educativa explicita, onde a aprendizagem não se limita à questão meramente cognitiva, mas também à formativa, ancorada por um projeto de sociedade. Essa afirmativa me faz destacar o imenso desafio dos educadores do nosso país: prover a sociedade de uma educação escolar que, efetivamente, forme e eduque. Uma educação inclusiva, estrategicamente direcionada, principalmente para os alunos da rede pública de ensino, onde incide a grande massa da sociedade brasileira, reconhecidamente sem acesso a uma escola de qualidade. Recomendo mais que a leitura,
o estudo dessa obra que pode constituir-se como uma referência dentro da diversidade de conhecimentos que sustentam a base de conhecimento do agir do professor profissional, o que implica saber tomar decisões fundamentadas cientificamente no complexo campo da educação escolar.

Betania Leite Ramalho

SUMÁRIO

Prefácio

Introdução

Capítulo 1 - A FORMAÇÃO DE CONCEITOS NA PERSPECTIVA TEÓRICA DE L. S. VYGOTSKY: APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO
1.1 A formação de conceitos em L. S. Vygotsky
1.2 A Formação de Conceitos Científicos (conceitos escolares). Reflexões
1.3 Os conceitos científicos e o pensamento teórico: as contribuições da educação no contexto escolar
1.4 Uma sinfonia incompleta? O caminho para as contribuições da Teoria da Atividade de A. N. Leontiev

Capítulo 2 - A FORMAÇÃO DE CONCEITOS CIENTÍFICOS NA ESCOLA E A TEORIA DA ATIVIDADE DE A. N. LEONTIEV
2.1 Atividade, aprendizagem e formação de conceitos científicos na escola
2.2. A ação e a atividade na Teoria da Atividade de A. N.Leontiev
2.3. Estrutura da atividade de aprendizagem
2.3.1 Um sujeito da atividade
2.3.2 Um objeto da atividade
2.3.3 Os motivos para realizar a ação
2.3.4 Um objetivo
2.3.5 Sistema de operações
2.3.6 A Base Orientadora da Atividade (BOA)
2.3.7 Meios para realizar uma atividade
2.3.8 As condições
2.3.9. O produto

Capítulo 3 - O PROCESSO DE FORMAÇÃO DE CONCEITOS SEGUNDO A TEORIA DE P. YA. GALPERIN
3.1 A Teoria de P. Ya. Galperin e a formação de habilidades
3.2 As etapas de assimilação na Teoria de P. Ya. Galperin
3.2.1 Etapa motivacional
3.2.2 Etapa de estabelecimento do esquema da Base Orientadora da Ação (BOA)
3.2.3 Etapa de formação da ação do plano material ou materializado
3.2.4 Etapa de formação da ação no plano da linguagem externa
3.2.5 Etapa mental
3.3 Qualidades da ação
3.3.1 A forma pela qual se realiza a ação
3.3.2 O grau de generalização
3.3.3 O grau de detalhamento
3.3.4 O grau de consciência
3.3.5 O grau de independência
3.3.6 O grau de retenção da atividade (solidez)
3.3.7 Grau de domínio
3.3.8 O caráter racional

Capítulo 4 - SISTEMA DE PRINCÍPIOS DIDÁTICOS DERIVADOS DA TEORIA DE P. YA. GALPERIN, DO ENFOQUE HISTÓRICO-CULTURAL DE VYGOTSKY E DA TEORIA DA ATIVIDADE DE A. N. LEONTIEV
4.1 Princípio do caráter educativo do ensino
4.2. Princípio do caráter científico do ensino
4.3. Princípio do ensino que desenvolve
4.4 Princípio do caráter consciente
4.5. Princípio do caráter objetal
4.6. Princípios didáticos que derivam da teoria de P. Ya. Galperin
4.6.1. Princípio da definição ou formulação exata e clara dos objetivos
4.6.2. Princípio do caráter seletivo da percepção
4.6.3. Princípio do caráter ativo da assimilação
4.6.4. Princípio da vinculação da aprendizagem com a vida
4.6.5. Princípio da ilustratividade e a materialização
4.6.6. Princípio da unidade entre o ilustrativo e o verbal
4.6.7. Princípio da retroalimentação
4.6.8. Princípio do caráter sistêmico do objeto da assimilação
4.6.9. Princípio da sistematização do ensino
4.6.10. Princípio da aprendizagem criativa

Capítulo 5 - AS TRANSFORMAÇÕES NA ORGANIZAÇÃO DO PROCESSO DE ENSINO DERIVADAS DA TEORIA DE P. YA. GALPERIN
5.1 A direção do processo de ensino
5.2 Organização do processo de ensino fundamentado na teoria de P. Ya. Galperin
5.3 A definição dos objetivos
5.4 O diagnóstico do nível inicial dos alunos
5.5 A Estruturação dos conteúdos
5.5.1. Os objetivos e tarefas de ensino
5.5.2 A lógica da teoria da assimilação: A estruturação sistêmica dos conteúdos
5.5.2.1 Enfoque sistêmico funcional-estrutural
5.5.2.2 Enfoque sistêmico genético
5.5.3 A lógica psicopedagógica
5.6 Organização das atividades segundo as etapas de assimilação
5.6.1 Características da organização das atividades docentes no ciclo de formação das habilidades
5.6.2 A seleção do Sistema de tarefas para a formação da habilidade
5.6.2.1 Tarefas para a realização das atividades programadas
5.6.2.2 Tarefas para o controle
5.7 O controle do processo

Referências