ISBN: 978-85-98843-87-2
Porque um livro sobre as escolas radiofônicas de Natal? Já foram publicados vários trabalhos abordando a radiodifusão educativa no Brasil e diversas experiências das escolas radiofônicas do MEB – Movimento de Educação de Base. O que as escolas radiofônicas de Natal apresentam de original? Em primeiro lugar, elas são citadas recorrentemente como as matrizes que deram origem ao MEB, o que é verdade. Em segundo lugar, pela sua criatividade exemplar.
No final dos anos de 1950, depois de muita discussão e após algumas experiências consideradas bem sucedidas, o Ministério de Educação e Saúde criou o Sirena – Sistema Nacional de Radiodifusão Educativa Nacional. Com a disponibilidade de horário das emissoras reservado emissões educativas e com a produção radiofônica centralizada na Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, consta que foram instaladas milhares de escolas em todo o território nacional. Sabe-se também que emissoras católicas mantinham convênios com o MEC para a retransmissão dos programas distribuídos nos antigos discos de acetato. Pelo menos no que dizia respeito à alfabetização, esses programas eram acompanhados de material didático, a Radiocartilha, também elaborada no Rio de Janeiro e distribuída para todo o país.
Não foi esta a fonte da experiência de Natal. Buscou inspiração no modelo de base paroquial, criado em 1947 pelo Pe. José Salcedo, em Sutatenza, na Colômbia, visitado nos anos de 1950 por D. Eugênio Sales, na época administrador apostólico da Diocese de Natal. Dois princípios básicos diferenciam, de início, as escolas radiofônicas de Natal das patrocinadas pelo Sirena. Em primeiro lugar, a recepção organizada; ou seja, as escolas reuniam um grupo de alunos em um local reservado para receber as emissões radiofônicas e as aulas eram intermediadas por um monitor, uma pessoa da “comunidade” escolhida e treinada para essa função. Segundo, a produção das aulas e dos demais programas radiofônicos, transmitidos pela emissora da Diocese, era feita localmente, em Natal, por professores e funcionários do SAR – Serviço de Assistência Rural.
Dito dessa forma, à distância, tudo pode parecer ideal, mas não era. A emissora era de pouca potência, o trabalho no SAR era essencialmente voluntário, as instalações das escolas eram pobres, muito pobres na maioria das vezes; o equipamento reduzia-se a um rádio de recepção cativa – sintonizava apenas a Emissora Rural –, um quadro de giz e um lampião de querosene, mais tarde substituído por um lampião a gás; alguns monitores não tinham nem mesmo o ensino primário completo. A própria equipe responsável profissionalizou-se nas técnicas radiofônicas na prática; aprendeu fazendo.
Nada disso, no entanto, impediu a criatividade e a aceitação das escolas e seu bom desempenho, na periferia da cidade de Natal e sobretudo no meio rural, onde era muito forte a ação pastoral da Igreja Católica, naqueles tempos considerada “progressista”. Muito pelo contrário. O não se prender aos esquemas impostos pela experiência oficial possibilitou à equipe responsável encontrar seu próprio caminho, inicialmente na alfabetização, em seguida nos programas dirigidos aos monitores e à “comunidade” em geral. Esse processo é bastante bem descrito neste livro, cujos autores foram seus protagonistas.
Mas há outra dimensão que precisa ser ressaltada. A experiência das escolas radiofônicas veio compor um trabalho que estava sendo realizado pela Diocese local, com vários desdobramentos: os grupos de Ação Católica, particularmente a JAC – Juventude Agrária Católica; o atendimento aos problemas básicos de higiene e saúde, em colaboração com o então DENERu – Departamento Nacional de Endemias Rurais; as missões rurais, introduzidas pela CNER – Campanha Nacional de Educação Rural, a partir das experiências mexicanas, cujo forte era o treinamento de professoras e “líderes” locais para as ações entendidas como de “desenvolvimento de comunidades”; a melhoria de técnicas agrícolas, na perspectiva da extensão rural, que se desdobrava no associativismo e no cooperativismo.
Esse conjunto de ações dirigidas pela Igreja ou às quais ela se associava deu origem ao Movimento de Natal, com forte repercussão e apoio internacional. Em particular, coube à Diocese de Natal, no início dos anos de 1960, assessorar a criação dos sindicatos rurais em sua área de atuação, ação exemplar para outras Dioceses do Nordeste, assim como criticar a estrutura agrária e a dominação política das oligarquias rurais, particularmente fortes no estado do Rio Grande do Norte.
O papel das escolas radiofônicas nesse Movimento foi fundamental, não só em termos da alfabetização dos que não tiveram e não tinham acesso ao ensino regular, como também de apoio à sindicalização rural e a sistematização e divulgação das críticas à dominação econômica e política.
O ano de 1963 marcou o melhor momento dessas ações, em especial pela campanha contra a “compra” do voto e contra o voto de “cabresto”. Essa campanha deu origem à série de programas radiofônicos designados “Realidade Política/Massificação”, cujo refrão era “Voto não se vende, consciência não compra”, e serviu de motivação para programas similares de “politização” elaborados e irradiados por outros sistemas radioeducativos do MEB, no período.
Essa experiência também está bem descrita no livro, inclusive no que diz respeito ao caráter de descoberta dos caminhos assumidos e no comprometimento da equipe responsável pelos trabalhos. Não é demais lembrar que a aceitação das aulas e dos demais programas radiofônicos tinha por base o contato pessoal da equipe do SAR com os monitores e com a liderança dos sindicatos e demais grupos, iniciado nos treinamentos e mantido pelas visitas de supervisão às escolas, assim como a produção radiofônica local que permitia um diálogo com os grupos atingidos e era alimentada por fértil correspondência, sistematicamente respondida nas próprias emissões.
Também não é demais lembrar que, no período, a Igreja Católica vivia a profunda renovação gerada pelo Concílio Vaticano II e pelas corajosas encíclicas do Papa João XXIII, Mater et Magistra e Pacem in Terris. Esse concílio e essas encíclicas não só atualizaram a Doutrina Social da Igreja, como motivaram o deslocamento de sua ação no atendimento das classes populares, designadas como “povo de Deus”. Vale lembrar ainda, o que está presente no livro, a radical mudança dos objetivos e do modo de atuação do MEB, no final de 1962, por um lado, influenciada pelas iniciativas de Natal, e por outra forte influência para o aprofundamento dessas mesmas iniciativas.
A experiência do MEB é bastante estudada. Eu mesmo a historio, no período 1961-1966, em Uma pedagogia da participação popular; análise da prática educativa do MEB – Movimento de Educação de Base (Campinas, Autores Associados, 2006). Também em termos gerais, mas explorando bastante a experiência do MEB/Natal e do sindicalismo rural tem-se Educar para transformar: educação popular, Igreja católica, política no Movimento de Educação de Base, de Luiz Eduardo W. Wanderley (Petrópolis, Vozes, 1984). Outras teses e dissertações, algumas publicadas em livro, analisaram as experiências de Goiás e Maranhão e de outros sistemas radioeducativos do Nordeste. A esses estudos vem somar-se agora este original escolas radiofônicas de Natal (1958-1966): uma história construída por muitos, cujos autores, repito, foram atores dessa mesma história.
Rio de Janeiro, dezembro de 2008
Osmar Fávero
SUMÁRIO
Apresentação
REALIDADE DA EDUCAÇÃO DO RIO GRANDE DO NORTE
COMO TUDO COMEÇOU
O TEMPO, O HOMEM, A IGREJA
O SERVIÇO DE ASSISTÊNCIA RURAL (SAR)
Educação
a) Atuação junto às escolas
b) Formação de recursos humanos
c) Educação para a saúde
d) Educação secundária gratuita
Trabalho em perspectiva nacional
a) Setor de migrações: “Não vá se puder ficar”
b) Setor de sindicalização rural
c) Setor de politização: “Voto não se vende, consciência não se compra”
MíSTICA E METODOLOGIA DA EQUIPE CENTRAL DO SAR
ESCOLA EM MOVIMENTO
ESCOLAS RADIOFÔNICAS: do SAR ao MEB
Escolas Radiofônicas como Setor do SAR – (Set.. 1958 a Jun. 1961)
Escolas Radiofônicas como Sistema do MEB: Jul./ 1961 a Set. 1966
INSTALAÇÃO DAS ESCOLAS RADIOFÔNICAS
ESPAÇO PEDAGÓGICO E FUNCIONAMENTO
Conscientização: núcleo da ação pedagógica
Aulas radiofônicas
Programas radiofônicos: parte complementar do processo educativo
Outros recursos da ação educativa
FORMAÇÃO E APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL
Equipes Locais do MEB/Natal
Equipe Central do MEB/Natal
PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO NO MEB/NATAL
O GOLPE CIVIL-MILITAR: CONSEQUÊNCIAS SOBRE O MEB/NATAL
TESTEMUNHOS: “O QUE O MEB SIGNIFICOU PARA MIM”
REFERÊNCIAS
SOBRE AS AUTORAS